sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Postando meus pensamentos:

1. Se você acha que viver em baixo da ponte o faz feliz, então vá viver lá, mas mais tarde, não se queixe do barulho que passa por cima.


2. Viver o presente sem vislumbrar o futuro é como apreciar uma réstia da luz solar sem aproveitar o esplendor do sol.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Nos dias de hoje, Um comentário inusitado!

Meu Giga amigo Ivânio: boa noite, tudo bem?




Não é nenhum segredo para ti que já li o teu livro UM RIO ENTRE NÓS e gostei em dimensões fora das expectativas comuns. Sem querer rasgar seda é só ler a opinião do Germano Moehlecke que não deixa dúvidas. Mas, manipulando o livro pela segunda vez com vontade de relê-lo não pude conter as lágrimas ao viajar no tempo pela belíssima e emocionante dedicatória que fizeste. É difícil dizer através de palavras o que sinto no momento. O que posso passar para ti é o grande valor que dou a esta obra escrita com tanto esmero e cuidado; com tanta perfeição, que sempre que posso e tenho oportunidade a difundo e propago entre meus amigos e conhecidos que labutam por causas nobres na comunidade. Não queria deixar passar mais tempo sem te dizer estas palavras de admiração. Sei que não são nem parecidas com as que me enviaste por ocasião do lançamento do meu livro e de minha esposa, que estão bem guardadas em meus arquivos e que pretendo mantê-las pelo resto da vida, mas o que te digo é do fundo do coração. Parabéns a este grande homem chamado Ivânio Habkost, que merece ser seguido e imitado como modelo exemplar. Deus guie os teus passos com Sua luz e paz bem como os de tua família.



Teu amigo de sempre agradecido,



Ivan Hoffmann

terça-feira, 5 de junho de 2012

P I C A C H Ú - Um cão fora de série!

P I C A C H Ú - Um cão fora de série!

Picachú em 2014 - com 14 anos

Nascido em Junho de 2000 em Sertão do Santana-RS
Falecido em 12 de Julho de 2014 em Novo Hamburgo


Era uma tarde bela, daquelas com sol radiante e quente. Claro era um bom verão. Uma pequena e estreita estradinha com capim no meio e dois sulcos cavados pelas rodas dos automóveis, pintados vez por outra por montículos de estrume que transmitiam um cheiro característico, lembrando que por ali, também passavam, vez por outra, algumas vacas. Lado a lado lhe acompanhavam duas cercas de arame farpado fixados em moirões já meio carcomidos pelo tempo, alguns arbustos de folhas miúdas, uma árvore maior aqui e ali, onde alguns passarinhos se debruçavam preguiçosamente coçando suas penas. Mais ao longe, no campo, um gado distraído ao mundo, mas concentrado no pastar, se desenhava na colina, contra o céu azul do horizonte. Tal era a estradinha que ligava a rodovia à moradia principal do sítio. Um atrativo e aconchegante lugar. Ao chegar, caminhei, respirando o ar puro, com alguns cheiros característicos de um sítio e escutando sons que amigavelmente a natureza nos oferece, algumas galinhas soltas ciscavam por ali. No jardim, bem cuidado, as multicores petúnias e rosas vermelhas, contrastavam com o verde da grama bem aparada. Caminhei em direção à casa, olhei ao redor, e após alguns cumprimentos perguntei por ele. Ao lado da casa, preso a uma goiabeira, com uma corda curta, o encontrei. Cheguei-me e apesar de amarrado à árvore pulava ao reconhecer-me. Acariciei a sua cabeça, olhei em seus olhos. Olhar de alegria, de exultação eu diria, felicidade ao rever-me. Alguns meses tinham se passado sem que nos víssemos. Um som gutural escapava de sua garganta. Um som semelhante ao que os humanos emitem quando gemem por amor. Era a primeira vez que eu sentia esse som vindo daquela criaturinha. Até hoje ele fala comigo assim. Preso a uma árvore e um imenso mundo de alegria ao seu redor sem poder desfrutar. Naquele momento decidi. Vou levá-lo comigo. E o trouxe para tomar posse do seu novo território. Estreitou-se, então, uma amizade. Um homem e um cão, talvez , seja melhor, entre um cão e um homem. A nossa história começou quando meu neto Bruno apareceu com o bichinho, uma bolinha redondinha, corpo manchado de preto e branco, ao redor dos olhinhos pintinhas amarelas, essas cores características da raça fox. Orelhinhas em pé, olhar brejeiro. "Vô, trouxe um cachorrinho, o nome dele é Picachú".

Ah! Então, claro, as perguntas de praxe, onde ele vai ficar?, quem vai alimentá-lo? Levar para fazer xixi? E coisas do gênero, quando se tem algum animalzinho em um apartamento. Silêncio, olhares se cruzando, expectativa. Sobrou pra quem? Pro avô, é claro. A convivência com as diabruras do Picachú começaram bem cedo. No apartamento havia um corredor comprido, de largura mais ou menos um metro, cobrindo o chão como piso, aqueles ladrilhos hexagonais cor de telha, uma porta em cada extremidade. O Bruno ficava numa ponta e atirava uma bolinha e lá ia o cachorrinho, em corrida louca, atrás da bolinha.

O Picachú inventou uma brincadeira interessante. Eu adquiri uma caminha de lona colorida, amarela e pequenos desenhos de cor vermelha e preta, tipo um iglú, bem para o seu tamanho. Pois, o Picachú se colocava numa das pontas do corredor e de lá vinha com toda a velocidade que podia e se lançava dentro do iglú que virava ao impacto, rolando casinha e animalzinho. Era uma festa só. Desde pequeno ele se mostrou um cachorro muito brincalhão e inteligente. E assim ele crescia divertindo-se e nos divertindo. Quando já um pouco maior e suas peraltices eram demais para viver enclausurado dentro de casa resolvi levá-lo para um sítio. Quando sobrava um tempo dava um pulo lá para visitá-lo. No início, bem ao modo da vida humana, corria tudo bem. Mas aos poucos algumas queixas começaram a aparecer. Ao indagar, quando o encontrei preso na goiabeira, a justificativa foi de que o Pícachú andava perseguindo galinhas, e que até já tinha matado algumas.

Decidi, então, levá-lo comigo, pois já estava morando numa casa com pátio. O seu novo território é razoavelmente grande. Ele encontrou aí a liberdade de locomoção e pequenos refúgios, pois tem espaços gramados para suas corridas, pequenos arbustos onde pode se esconder. Ao fundo uma reunião de bananeiras formam um recanto, onde ele seguido vai xeretar. Na frente, tem alguns lugares, seus preferidos. Um desses é embaixo da casinha de madeira que pertence ao Bruno. Esta casinha está construída junto a um enorme angico, ao estilo tarzan e o Picachú gosta de estar aí, pois no verão é fresco e nos dias frios ele cava buracos e aí se deita. Dando acesso ao pátio, um portão de grade permite ver o que se passa na rua o que ele aproveita bem para bater um papo com alguns cachorros da vizinhança, mas principalmente, latir e correr ao longo do muro dianteiro à caça do carteiro. Nesse novo ambiente fomos, aos poucos, nos adaptando um ao outro. Ao sair para o pátio, ficava ao meu redor e, se eu me enfurnava na garagem dos fundos, lá ficava ele na porta, deitado, a esperar-me, de tal sorte que sabiam sempre onde eu estava.. Aproveitando essa proximidade que ele me proporcionava, aos poucos fui exigindo dele certos comportamentos. Nunca perguntei a ele se estava de acordo. Eu sempre tive na cabeça que "macaco é macaco, menino é menino", como diz o Falcão. Quer dizer cachorro é cachorro. Então eu lhe ensinei que não deveria entrar dentro de casa e até hoje, obediente, ele chega até a porta, senta ali e não entra. Ao anoitecer de certo dia, fazia um frio de "rachar", como costumamos dizer aqui pelos pampas, eu defronte a lareira me esquentava bem acomodado. O fogo a crepitar em labaredas aquecia o ambiente. Olhei para a porta fechada e na varanda externa, estava o meu cão me olhando. Fixei o meu olhar no dele, através da vidraça, e após no seu corpo. Tremia. Ele treme até hoje quando chega perto de mim e quer alguma coisa.

Levantei-me, fui até a porta, abria-a e o convidei-o para entrar. Não precisou um segundo convite. Como um raio se aconchegou sobre o tapete e ali ficou admirando o fogo. Como sou um ser humano, tasquei "É só hoje, não vai te acostumando não!". "Cachorro é cachorro!". Ele com a cabeça descansando sobre as patinhas, só mexeu com os dois olhinhos, observando-me. Foi o meu primeiro contato com aquele tipo de olhar. Um olhar misto de inquirição com agradecimento, não dá para definir bem em palavras, este olhar. Tem outras coisas que ensinei para ele. Uma delas é dar-me bom-dia quando abro a porta pela manhã. Ele senta, me olha e levanta uma das patinhas. Eu a pego e nos cumprimentamos. É assim que começamos o nosso dia. A lição mais recente é de "fazer-se de morto". "Morto, Picachú, morto Picachú!" é a minha ordem e lá se deita ele todo esticado no chão, patinhas pra cima. A lição ainda não está completa, quero que ele aprenda a fechar os olhos também. Num 2 de março, aniversário do Bruno, toda a meninada reunida em festa e brincadeiras, mantive o Picachú preso à sua casinha a fim de evitar algum constrangimento. Depois que a gurizada se divertiu, inclusive, assistindo uma pecinha teatral, falei para eles: "Agora, vamos lá para fora que eu tenho uma surpresa!". Fui buscar o Picachú. E começou o seu show. Eu atirava um balão para cima e, aos gritos frenéticos da petizada, o Picachú corria atrás do balão atirando-o para o ar com seu focinho. Em saltos acrobáticos e corridas em ziguezague, perseguia o balão que voava ao sabor do vento e direcionados para cima com o focinho dele, como quem cabeceia uma bola. Depois fizemos a demonstração da nossa brincadeira predileta. Eu segurava uma garrafa de plástico (previamente preparada pelo próprio Picachú. Ele ainda hoje prepara essas garrafas. Com as mandíbulas amassa toda ela até ficar tipo uma lâmina), e o Picachú pulava e tentava agarrar no ar a garrafa para retirá-la de minha mão. Sucesso total. Tomou conta do espetáculo, todos queriam segurar a garrafa. E eu pensei que ele, cachorro, iria morder a gurizada! Homem é homem! Esse tipo de brincadeira continua até hoje. Quase sempre é ele quem começa. É o seu recado para comunicar-se de uma maneira prazerosa. E ele brinca assim com todos. O Bruno adora. Vamos agora conhecer outras facetas desse cãozinho diferente e quase humano. Certa tarde, cheguei até a varanda e vi que o portão de entrada estava aberto; é desses portões largos e altos, feitos de ferro, e movidos por comando eletrônico. Associei logo que o Picachú teria saído. Não deu outra. O Picachú fugiu! Sabe, leitor, aquela sensação de impotência que de nós toma conta diante de uma impossibilidade? Pois é, nesse momento ela tomou conta de mim. Mil pensamentos negativos me assolaram, até o mais pessimista. Bem, fiz o que tinha que fazer. Peguei a corrente dele e saí pelas ruas a procurar. A cada rua que entrava, meus olhos a percorriam até onde podia, perscrutava cada pátio, via em cada cachorro à distância, o meu cachorro. Ele estava me fazendo passar por uma nova experiência, a sensação de perda, sentimento que cria um vazio e nos conduz a uma sensação de impotência diante do desconhecido. Depois de muito caminhar, quase desistindo, e de recriminações pessoais por tê-lo deixado escapar, olhei para um pátio aberto, coberto de grama, e lá no fundo, o Picachú, numa boa, a brincar com outros companheiros. Quando me viu, levantou a cabeça, suas orelhas se empinaram, aliás, uma só, pois uma delas não levanta totalmente, a cartilagem é quebrada.
Então, uma orelha em pé e a outra com a ponta curvada, me viu, ficou parado, estático. O que estava se passando em seu cérebro? É difícil dizer. Se fosse eu talvez, talvez não, seguramente, eu pensaria: "Me achou. Vai me levar, droga!". Esta foi sua primeira aventura fora de casa. Sua primeira fuga. Ocorreram muitas outras. E apesar dos castigos que eu lhe impunha elas continuaram. A última fuga, a mais espetacular, ocorreu num carnaval. Também, foi a última, porque resolvi arrumar definitivamente a parte eletrônica do portão. Eu denominei essa peripécia de "Fuga de malandro". Aconteceu, a hora, não sei bem, mas era véspera de carnaval. Desta vez não o encontrei em parte alguma da cidade, percorri os lugares anteriores onde o havia encontrado, fui mais além, tudo em vão. Tinha quase a certeza de que alguém o tinha seqüestrado. No dia seguinte a sua fuga, levantei bem cedo para deixar o portão aberto, na esperança de que se ele voltasse não tivesse dificuldade em entrar. Pois, qual foi minha surpresa quando fui até a calçada, e vi um carroceiro, desses trabalhadores que juntam papéis e outras coisas para reciclar, se acercando da minha lixeira. Junto com ele, acompanhando a carroça, meia dúzia de cães e no meio deles o dr. Picachú, todo faceiro, bem enturmado, parecia que aquela já era sua turma a longo tempo. Chamei-o e ele entrou rapidamente para dentro do pátio. Fechei o portão e fui com ele ter uma conversa de homem para homem, como se diz. Sensatamente sentado sobre as pernas traseiras, com a cabeça voltada para mim e aquele velho olhar de concentração, escutou tudo o que eu tinha para dizer para um cachorro fujão. Falei das pulgas que provavelmente tinha pegado dos outros cachorros, possíveis doenças que poderia contrair, que dormir fora de casa não é legal para um cachorro de família, que eu não o estava criando para ser um vira-latas, que a convivência com esses tipos de cachorro, desses que andam perambulando pelas ruas, só traria maus hábitos. Sem falar no tipo de alimentação, muitas já cheia de bactérias, logo ele que só comia ração, quando muito ganhava um osso, nos dias de churrasco. Desfilei para ele uma enorme ladainha de bons costumes, de comportamento, de boas maneiras. Disse que ele era um mal agradecido porque tinha tudo naquele pátio, ração, água fresquinha, minha amizade, e tudo o mais. A tudo ouvia impassível, com olhar fixo em mim. Quando dei por terminado o sermão ele saiu correndo e pegou a garrafa de plástico para brincar! Ele é assim, não reclama de nada, aceita tudo numa boa, mas também me parece que não leva muito a serio certas coisas que eu digo. Fico pensando, puxa ele aprende o que lhe ensino, será que entende os meus sermões, ou se faz de desentendido? Eu tenho feito alguns testes para ver até onde vai sua inteligência. Um deles é quanto aos lugares onde ele faz cocô. Um dos locais em que eu não gosto que ele faça cocô é do lado da casa onde as pessoas transitam. Você, leitor atento, já pisou, sem perceber, num cocô de cachorro e entrou dentro de casa, pisou sobre o tapete, e daqui a pouco começa a sentir aquele cheiro? E limpar o tapete depois e, também o sapato? Pois é, num destes momentos de raiva por acontecimentos como esses de que falo, chamei o Picachú para perto de um daqueles montículos que ele havia depositado por ali. Ele sabe muito bem quando eu o chamo para alguma recriminação. A maioria das vezes ele se esconde em sua casinha e eu tenho que puxá-lo para fora. Arrastei-o até o lugar onde ele havia feito o cocô, obriguei-o a olhar e coloquei o seu nariz bem perto e então lhe falei, dessa maneira enérgica que só os poderosos e cheios de razão falam: "Não quero que faças mais cocô aqui, entendeu bem!"
Novamente aquele olhar que não consigo descrever. Penso comigo: "Acho que ele entendeu!" Passa-se algum tempo sem que ele deposite por ali as suas fezes, mas depois recomeça. Bom, resolvi retirar desses lugares o cocô. É uma decisão de convivência mais amena, sem stress para os dois.
Eu, como bom dono, levo, anualmente, o Picachú ao veterinário para fazer suas vacinas e por causa disso ele tem boa saúde. Apesar disso ficou seriamente doente. Contraiu uma doença muito séria. Foi um danado carrapato que se grudou em sua pele e lhe inoculou no sangue um virus. Passou maus dias, mas com medicação e alimentação adequada superamos tudo. Tem, hoje uma saúde muito boa.

Vamos falar um pouco da suas relações. O Picachú também tem suas manias. Uma delas é não permitir que outro animal pise no seu território, aliás nisso é bem parecido com os humanos. Já matou meia dúzia de gatos que invadiram o seu território e corre a espantar qualquer passarinho que se aventura a descer no pátio. Não posso condená-lo por esta falta de sociabilidade com seres que não são da sua espécie. Já com os outros cachorros tem um bom relacionamento, com os quais aliás, convive muito bem, desde que sejam do seu tamanho, pois detesta os cachorros grandes, com os quais quase sempre, quando possível se engalfinha e sai perdendo.

Por razões imperiosas me mudei para uma nova cidade e o Picachú teve que ficar sozinho no seu território, embora diariamente a empregada do vizinho, contratada por mim cuidava dele. Certo dia recebi um telefonema dela dizendo que o Picachú tinha fugido e brigado com um cão bem maior do que ele e estava todo ferido. Fui vê-lo e o levei no veterinário que lhe fez os curativos necessários, receitando algum antibiótico. Reforcei a cerca por onde havia fugido e consegui mantê-lo sem sair do pátio. Nos fins de semana nos víamos quando para lá eu me dirigia.

Acabei vendendo a propriedade e tive que trazer o Picachú para a nova casa. Não havia pátio suficiente e tive que confiná-lo numa espécie de canil. Foi uma terrível transformação para ele, pois na residência anterior ele tinha um enorme pátio para correr e se distrair, agora estava ali confinado. Ele, apesar disso, estava sempre disposto e compreensivo. Sentia-se feliz quando eu brincava de garrafa com ele. Mas, a sua veia de cachorro fujão não estava entorpecida. Um descuido e lá se foi ele. Procurei por ruas próximas e não o encontrei. Achei que o havia perdido, pois numa cidade maior é muito mais fácil de ele sumir. Procurei durante todo o dia, ao voltar do supermercado, à tardinha, vi o Picachú se arrastando pela rua em direção à casa. Parei o carro para colocá-lo para dentro e vi que estava todo ensanguentado, tinha um corte profundo perto da garganta, e outro no lombo. Tinha brigado, com certeza, com outros cachorros. Levei-o imediatamente para uma clínica veterinária. O Veterinário o examinou e disse que faria o possível para salvá-lo, embora os ferimentos fossem muito graves. Deixei-o naquela noite na clínica e fui buscá-lo no dia seguinte. Estava todo enfaixado e muito inchado. O Veterinário disse que tinha feito as suturas necessárias e receitou antibióticos que eu deveria dar rigorosamente durante os dias seguintes. Pois, o Picachú resistiu, se recuperou e hoje voltou a ser o cão brincalhão que sempre foi. Hoje estamos morando em outra casa e ele está no pátio dos fundos. Uma boa área onde pode correr e brincar. Volta e meia o levo para passear na rua, mas bem amarrado para não fugir. A última peraltice que fez, foi muito interessante pois demonstrou muita persistência e luta para atingir o seu objetivo. Foi quando estava construindo minha nova residência. Levei o Picachú para cuidar os materiais. Fiz um pequeno cercado e o deixei para passar a noite como cão de guarda. Ao chegar no dia seguinte o encontrei na rua brincando com alguns cachorros da vizinhança. Como eu precisava que ele ficasse de guarda, fiz um cercado maior. No outro dia pela manhã, encontrei novamente o Picachú na rua todo embarrado. Pois o danado cavou um buraco na terra, por debaixo do portão de madeira e por ali saiu. Acho que passou toda a noite cavando o buraco. Então, desisti de deixá-lo como cão de guarda. Sei lá o que se passava em sua cabeça, talvez sensação de abandono, desespero ou só malandragem mesmo.

Essa é a história de um cão fora de série. Até aqui, pois o Picachú esta com 12 anos e com boa saúde, talvez apronte outras. E de fato aprontou. Certa madrugada ouvi barulho no pátio, miar de gato e grunhir do Picachú. Levantei e fui ver o que se passava. Pois o danado estava abocanhando um gato preto que havia invadido o seu território. Corri para separá-lo do gato. Ia para cercá-lo de um lado e ele se deslocava rapidamente para o outro, alcançando o pobre gato que já estava quase morto. A todo custo consegui imobilizar o Picachú e prendê-lo. Examinei o gato que estava inerte no chão, vi algum sangue escorrendo. Peguei um saco e o larguei perto do portão frontal da casa, fora do alcance do Picachú. Pensei: “Amanhã vou enterrar esse gato no bosque aqui perto”. No dia seguinte tirei o carro para fora da garagem, abri o porta malas e coloquei o bichano com saco e tudo ali dentro. Chegando no pequeno bosque, retirei o bicho, que eu julgava morto, e ao abrir o saco o gato pulou fora e saiu meio doido, correndo por entre as moitas. Não sei qual foi o destino desse pobre gato, mas com certeza, se sobreviveu, não mais entrará nos domínios do Picachú.

Talvez, tenha esquecido de mencionar, mas o Picachú não suporta foguetes. Ao ouvir os estrondos se põe a latir desenfreadamente e, não adianta mandar se calar, pois enquanto não cessam os foguetes ele não pára de latir. Foguetes, gatos e cachorros grandes ele não suporta, mas adora uma comidinha de humanos. Um arroz com carne, um osso, um pedaço de carne, um pão, uma bolachinha, ah! Isso não tem preço para ele.

Hoje, estamos nos primeiros dias de junho de 2012, época do Picachú fazer 12 anos. Levei-o esta semana para fazer as vacinas e o veterinário disse que o seu coração é de um cachorro bem mais jovem. Volta e meia ele apresenta uma coceira no perna e morde até fazer ferida, é provável que seja algum tipo de alergia. O veterinário receitou uma pomada, vamos ver se resolve. Quando comprei a pomada, aproveitei e comprei um roupa nova para ele enfrentar o inverno e uma corrente para segurá-los nos passeios que fazemos, pois a que usava era de fibra e já estava se rompendo por mordidas do Picachú nas poucas vezes em que o deixei preso no pátio. Lembrei-me que o veterinário recomendou o uso de colar para evitar que o Picachú removesse a pomada. Na casa veterinária pus o colar no Picachú, mas ele arrancou-a Botei uma coleira para prender o colar, mas ele se desesperou tentando arrancar o colar. Desisti de comprar o tal colar e substitui a pomada por um “spray”.

Esqueci de contar que no verão passado ocorreu uma tempestade e arrancou algumas telhas. Chamei um pedreiro e abri o portão para ele entrar e fiquei entre o Picachú e o homem, pois o danado, como um raio, contornou-me e mordeu a mão do pedreiro. Achei que comigo por perto ele não atacaria, mas enganei-me. Tive que prendê-lo e, mesmo assim, ficou latindo e pulando. Vi, neste instante, que ele realmente não aceita estranhos em seu território. Apesar disso aceitou bem a companhia de um cãozinho que foi crescendo junto com ele. Fizeram uma boa amizade e, brincam feito duas crianças, ou seja, como dois cachorros gostam de brincar. Esta companhia fez muito bem ao Picachú, só espero que ele não entristeça quando o Zèzinho, este é o nome do cachorrinho, for embora, pois ele pertence à Lidane, minha filha adotiva.que irá morar no Rio de Janeiro.
Em 22/11/2013, o Picachú foi submetido a uma cirurgia para retirada de um tumor que apareceu logo acima do anus, abaixo do rabinho. Em consquência desse tumor ele teve que ser castrado.Suportou bem essa adversidade.
Em 2014 anda meio acabrunhado, também meio surdo. Apareceram algumas alergias pelas pernas.Mas, tem se alimentado bem, embora já não consiga mastigar ração com grânulas maiores. É o meu cão que envelhece!
Em 19/06/2014, novos tumores apareceram por seu corpo. Levei ao veterinário para retirá-los. Medicação com antibióticos por uma semana e cuidados especiais para que não arrancasse os pontos.
Recuperou-se, mas infelizmente por pouco tempo. Começou o seu sofrimento, o câncer atacava seus órgãos internos e seus rins pararam de funcionar. Em 12/07/2014, num sábado triste, para evitar um sofrimento maior, em comum acordo com o veterinário, decidimos por praticar a eutanásia. Decisão terrivelmente dolorosa para mim, seguramente a decisão mais dolorosa que tomei na vida, mas eu não aguentava mais ver o meu cãozinho sofrer. Não comia. se arrastava da casinha para o sol, não segurava mais o xixi; Estava sofrendo muito.Um corpo agonizante se arrastava diante de mim. Não quero falar do seu olhar!.
Adeus Picachú. Fica a tua história que foi escrita, não na tua morte, mas durante a tua vida, pelo prazer que eu sentia em falar de ti e dizer para as outras pessoas das tuas peraltices e eternizar nossa amizade. Aprendi muito contigo, a humildade, a tolerância, o esperar, a alegria gratuita,o amor incondicional.Por ti, o mínimo que posso fazer,agora,  é que vou tentar usar o que aprendi contigo.Talvez, quando nos encontrarmos novamente, possas me alcançar tua patinha, para um caloroso bom dia.



terça-feira, 22 de novembro de 2011

Encruzilhada

Reflexões para quem escolhe um caminho numa encruzilhada.

Você me ajuda?

Preciso de você agora, você me ajuda?
E a mão esticada, o olhar suplicante
A espera do que não vem, do que não damos
O vazio, o desespero da solidão
A incompreensão, a indiferença, o gelo do silêncio
Morre o amor, a fraternidade, segue a vida
Tão juntos, mas tão distantes
Soluço de apenas lágrimas, o tremor do frio
Você me ajuda? Súplica vã do olhar perdido
Tremula voz do pedinte que vaga
Se perde no mar da indiferença humana...
Quantas vezes ouvimos, “Você me ajuda?”
De um olhar, de um abraço, de um soluçar
De uma dor, de um sorriso, de uma flor alcançada
Do tiritar de frio, de uma dificuldade,
De um medo de pedir.
E, no entanto seguimos sem alcançar
O sorriso necessário, o abraço amigo
O pão que alimenta, a palavra que afaga.
E seguimos mais vazios do que nunca...
Você me ajuda?

Talvez, esses versos que para minha reflexão escrevi, tenham me proporcionado esta oportunidade de chegar até onde estás. Muitas vezes, ao longo de minha vida, encontrei-me em encruzilhadas como essa que, no momento, se apresenta para ti. A súplica “Você me ajuda?”, muitas vezes, não sai, pelas razões que a poesia acima ressalta, ou por outras que não sabemos bem definir. Onde encontrei definitivamente auxílio? Olhei ao meu redor, procurei respostas, julguei os outros, até que exausto, olhei para mim mesmo. E aí, descobri, estava a resposta. Eu, e só eu, era o responsável pelo que estava acontecendo. Esta é a realidade da qual muitas vezes fugimos, mas que quando entendida, serve de base para a virada. A coisa passa a ser simples, porque eu não dependo de ninguém a partir desse momento. E os outros? Bem os outros ficam ou se vão, não somos donos do destino deles, devemos compreender isso também. Sentimos sua partida, seja na morte, seja na vida. Derramamos lágrimas, mas essas são regeneradoras. Nas encruzilhadas da vida temos de escolher uma estrada. Como seria a outra? Bem, jamais saberemos, e por isso temos que nos permitir viver intensamente a estrada que escolhemos. Espinhos, flores, pedras, oásis, e muito mais encontraremos, mas existe um consolo e uma realidade: “Fui eu quem escolhi esta estrada!”

Um fraternal abraço,
Ivanio.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

AGRADECIMENTO

Por poder ouvir as minhas músicas
Ouvir os sussurros, o choro de um bebê
O farfalhar das folhas ao vento
O marulho de um lago sereno
Ouvir a primeira palavra do meu filho
Ouvir palavras de aconchego!

Obrigado por poder ver as cores da natureza
O verde das árvores, a areia branca das dunas
Ver o por do Sol, ver o mar
Ver a quem amo, ver o desconhecido que chega
Obrigado por poder ver-me, ver as minhas mãos
A cor do meu cabelo, da minha pele
Ver o meu rosto, ver a minha dimensão!

Obrigado por poder falar
Dizer o que sinto, fazer-me ouvir
Expressar em palavras sonoras
A alegria, a tristeza, os prazeres!
Cantar para expressar a vida, o sentimento
Obrigado por poder falar com os amigos,
Com os animais, dar o meu recado!

Obrigado por não ter sido privado
De ouvir!
De ver!
De falar!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

OPS! Um ano sem postagem! Vamos então quebrar esse tempo com a poesia abaixo de minha autoria:

Você não chega!



Há quanto tempo você não me visita!

Estou nostálgico, estou carente

Minhas mãos se enrugam, se esfriam

Quero as tuas mãos, macias, quentes

Preciso andar ao teu lado, segurando o teu braço

Caminhar sem palavras por algum tempo

Depois ir recordando aos poucos o tempo

Momentos que foram nossos e de todos

A vida me suga o restante de mim

Aos poucos, sentindo dó, percebo

A distância, o espaço, a frieza

Indiferença essa foi minha estrada

Minh’alma vê e chora

Mas esta dor não me chega em lágrimas

Secaram...

Você não chega!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

CRÔNICA PARA IDOSOS

A grande verdade, para nós idosos, é que nos deixamos arrastar pela densidade das recordações. Vejamos: quando jovens olhamos para a frente sempre com alguma meta: busca da mulher ou homem para amar, por um emprego mais rentável, para aquisição do primeiro carro, a casa própria, uma nova música, um novo conceito, aquela viagem, e assim por diante. Está, talvez, aí o grande abismo das concepções de vida.
Vamos nos perguntar: O que envelhece em nós? A resposta é bem simples, não é mesmo? É o corpo. Mas, os paradigmas sociais envelhecem nossas atitudes perante a vida. Eis aí um vetor de envelhecimento precoce. Nossa mente é muito complicada e quando somos levados ao limite muitas vezes nos perguntamos diante de uma situação inusitada: "Puxa, esse sou eu?" Compreender nossos relacionamentos com o ambiente em que vivemos é tarefa para toda a vida. Somos olhados por nosso pares sociais como os coitadinhos e, então, inventam designações como "Melhor Idade", lá vem os bailes, os chás e outros que tais, mas inserção social nada. A pior coisa que inventaram para a sociedade foi a aposentadoria profissional. A meu ver o esforço daqueles que inventam programas para os "velhinhos" deveria ser revertido para buscar soluções fraternas, compreendendo as limitações físicas e reinventar as atividades profissionais. Fomos todos, até agora, educados para descansar depois de um certo tempo, para buscar o ócio, como se isso fosse um grande prêmio.
Daí surge a luta e muito desperdício para reinventar a vida. É mas eu sou gordo, sou feio, sou negro, sou índio, sou magro, e sou velho! Pensemos: não está aí algum paradigma? E o Jô não é gordo? E o Obama não é negro? Onde será que está a diferença? Qual é o caminho? Existem muitas moradas. É só achar o caminho. Mas , o principal deles é olhar para dentro de si mesmo e dizer como Obama disse "Eu posso!".
A caminhada para o auto-conhecimento é longa e interminável, pois, se tal não fosse, a vida não teria sentido.
Quem sou eu? Porque vivo? Porque meu corpo é assim? Porque tenho limitações físicas? Porque tenho limitações intelectuais? Se ainda não temos respostas vamos buscá-las, seja na literatura, seja nas religiões, seja em atividades fraternas que tragam a paz interior. A reforma interior bem estruturada se reverte em ações positivas para si e para os outros e nos impulsiona para a felicidade. Mas, o que é a felicidade? É complicado responder essa pergunta, pois a resposta não é absoluta. Se aceitarmos que somos seres de corpo e espírito, podemos dizer que nosso corpo está feliz se está com saúde, pois assim poderá exercer plenamente suas funções biológicas. E o nosso espírito, quando está feliz? Não será a paz de espírito, entendida como o resultado da vitória das ações positivas sobre as negativas? Se for, a felicidade não é algo perene e, sim, de momentos. Essa idéia nos leva a uma luta constante para construir uma espiral da felicidade constituída de momentos vitoriosos em tempo diferente e ascendente. Um homem disse: "Conhece-te a ti mesmo!" e um outro completou com sabedoria e amor: "Ama o próximo como a ti mesmo". Já nos conhecemos? Como posso amar o próximo se não me conheço. E se não me conheço como posso amar a mim mesmo? As perguntas é que movem o mundo. E elas não têm idade! As respostas sim têm idade, por isso precisamos reinventar as respostas a cada ciclo da vida. Quando outro te perguntou aos vinte anos: "Você me ama?" E quando te fez esta pergunta aos sessenta?
Outra idéia que, ao meu ver, precisa ser trabalhada é "Perspectiva". Sem perspectiva é difícil viver feliz. A perspectiva é um vetor que pode ser apontado em qualquer direção. É ela um acelerador de nossas ações na direção dos objetivos" Eu estudo porque tenho a perspectiva de conseguir empregos que me satisfaçam, eu vou para tal lugar porque lá existem melhores oportunidades, vou me casar porque existe a perspectiva de constituir uma família e ter filhos". E as perspectivas à medida que avançamos na idade? Em primeiro lugar temos que afastar a linha de vida que diminui inexoravelmente, aceitar o seu encurtamento e não pensar nela, como aceitamos a morte e não devemos pensar nela, ou pensar só o necessário, pois elas, a linha de vida e a morte, são também uma perspectiva. Colocá-las num canto da mente, das emoções, e deixá-las ali, pois estão fora do nosso alcance modificá-las. Mas, que perspectivas existem para nós idosos? Acho que existe uma linha mestra: Lutar sempre! E dizer: "Eu posso!"

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

CAZUZA

Costumo filtrar muito as mensagens que recebo antes de repassá-las. Esta achei digna de publicar também aqui. Pois, tenho certeza que a insubordinação de jovens nas famílias, nas escolas e na sociedade em geral tem muito a ver com o culto a mitos negativos, incentivados por pais inconsequentes, professores relapsos, e por uma sociedade corrupta. E, também, diga-se de passagens, por uma geração de psicólogos, que pregavam veementemente o "sim" para tudo na educação dos filhos e alunos. Ainda hoje assistimos a conselhos tutelares que incondicionalmente apoiam crianças, embora erradas no seu comportamento. Assistimos a pais intervindo na gestão escolar para "lavar a honra" do seu filhinho indisciplinado. Assistimos, também, a gestores escolares que não querem se incomodar com a comunidade escolar por várias razões. Vamos batalhar para mudar isso!

"CAZUZA , UM IDIOTA MORTO .

Esse cidadão dizia "todos os meus heróis morreram de overdose". E era aplaudido. É .... DEVIAM COLOCAR o texto abaixo NUM OUTDOOR LÁ NA PRAÇA CAZUZA, NO LEBLON... Psicóloga x Cazuza!
Esta mensagem precisa ser retransmitida para todas as FAMÍLIAS! Uma psicóloga que escreveu, corajosamente algumas verdades.
Uma psicóloga que assistiu ao filme escreveu o seguinte texto: 'Fui ver o filme Cazuza há alguns dias e me deparei com uma coisa estarrecedora.. As pessoas estão cultivando ídolos errados.. Como podemos cultivar um ídolo como Cazuza? Concordo que suas letras são muito tocantes, mas reverenciar um marginal como ele, é, no mínimo, inadmissível. Marginal, sim, pois Cazuza foi uma pessoa que viveu à margem da sociedade, pelo menos uma sociedade que tentamos construir (ao menos eu) com conceitos de certo e errado. No filme, vi um rapaz mimado, filhinho de papai que nunca precisou trabalhar para conseguir nada, já tinha tudo nas mãos. A mãe vivia para satisfazer as suas vontades e loucuras.. O pai preferiu se afastar das suas responsabilidades e deixou a vida correr solta.. São esses pais que devemos ter como exemplo? Cazuza só começou a gravar porque o pai era diretor de uma grande gravadora.. Existem vários talentos que não são revelados por falta de oportunidade ou por não terem algum conhecido importante. Cazuza era um traficante, como sua mãe revela no livro, admitiu que ele trouxe drogas da Inglaterra, um verdadeiro criminoso. Concordo com o juiz Siro Darlan quando ele diz que a única diferença entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar é que um nasceu na zona sul e outro não. Fiquei horrorizada com o culto que fizeram a esse rapaz, principalmente por minha filha adolescente ter visto o filme. Precisei conversar muito para que ela não começasse a pensar que usar drogas, participar de bacanais, beber até cair e outras coisas, fossem certas, já que foi isso que o filme mostrou. Por que não são feitos filmes de pessoas realmente importantes que tenham algo de bom para essa juventude já tão transviada? Será que ser correto não dá Ibope, não rende bilheteria? Como ensina o comercial da Fiat, precisamos rever nossos conceitos, só assim teremos um mundo melhor. Devo lembrar aos pais que a morte de Cazuza foi consequência da educação errônea a que foi submetido. Será que Cazuza teria morrido do mesmo jeito se tivesse tido pais que dissesem NÃO quando necessário? Lembrem-se, dizer NÃO é a prova mais difícil de amor . Não deixem seus filhos à revelia para que não precisem se arrepender mais tarde. A principal função dos pais é educar.. Não se preocupem em ser 'amigo' de seus filhos. Eduque-os e mais tarde eles verão que você foi à pessoa que mais os amou e foi, é, e sempre será, o seu melhor amigo, pois amigo não diz SIM sempre.' Karla Christine Psicóloga Clínica
Leu ?
Concorda com a psicóloga? Então faça sua parte divulgue...

sábado, 10 de janeiro de 2009

NUNCA MAIS !
Chegou-me um corvo. Não um corvo comum, desses corvos fedorentos, com penas toscas, que vivem comendo a carniça das carcaças mortas, os quais, comumente, chamamos urubus; mas sim, um corvídeo imponente. Um corvídeo com penugens lustradas de um preto-azulado. Uma ave de tamanho um pouco maior do que o de um corvo comum. Chegou-me esse corvo diferente e bicou na minha janela. Olhando-o assim, na noite estrelada, parecia, contra a cortina do céu, fazer parte de uma constelação. Pensei: "É mau agouro! Vou deixá-lo ir-se!" E voltei a ler. Duas páginas lidas e nova interrupção pelas bicadas na janela. "Vai-te embora ave preta! Não entrarás aqui capeta!". Não sei porque razão estava chamando aquela ave de agourenta e preta; mas falei alto, minha voz saiu tremida, como que assustada, estranhei! Levantei, larguei o livro sobre a mesinha e cheguei bem perto da janela. Aproximei minha cabeça do vidro que nos separava. O bicho virou a cabeça reluzente para o lado contrário e seu olho se fixou nos meus. Ficamos assim nos encarando por algum tempo. Nem uma piscadela de parte a parte. Aos poucos vi-me dentro daquele olho redondo e molhado. Lá estava eu me fitando. Meus olhos me olharam, estranhamente de dentro daquele olho, como a quererem uma mensagem dizer. Neste instante, a ave deu um salto para cima quase caindo do parapeito da janela. Equilibrou-se, abriu o bico fino e cortante e emitiu o seu som estridente, monossilábico e fantasmagórico. O corvo um pouco mais afastado, pude ver que havia em sua perna, próximo ao pé, um anel metálico. "Humm...este corvo tem dono, ou será uma ave marcada por algum ornitólogo estudioso!". "Vai embora ave preta, pois com ansiedade teu dono te espera, quem sabe há anos, pois com certeza, da eternidade não és!". "Mas e se for dos umbrais terríveis, abissais?". Credo! "Vai-te logo bicho das lendas ancestrais!". Deixando o corvo a me fitar, não sem sentir no âmago uma indescritível perturbação, fui à cadeira me sentar. Suava um pouco, minhas mãos estavam úmidas. Quando retomei à leitura percebi que tremia. A concentração se esvaia e a leitura não progredia, embora esforços tenebrosos. Fui vencido, fechei os olhos e deixei meus pensamentos bailarem. Não queria olhar para a janela. Desejava que ele não estivesse lá. Que tivesse ido embora, o corvo, e nunca mais viesse a perturbar os momentos da minha vida. O meu sótão era de paz. Eu o construi como refúgio, quase uma clausura. De área não mais do que quatro metros quadrados. Cabia ali uma pequena mesa, uma poltrona bem confortável das antigüidades, uma estante onde colocava meus livros bem distribuídos por assuntos e algumas utilidades, dessas que se usam para pequenos consertos. Claro, uma porta por onde entro e uma janela, de vidro sustentado por quadros de madeira, meia inclinada para o céu. Dessa janela, agora com o fatídico corvo, eu acostumara admirar o firmamento. Essa janela a qual me serve sempre de inspiração, pois me mostra o ignoto do infinito, essa janela, agora, me causava calafrios. Para ela eu não queria olhar pois, com certeza, lá estava a ave preta à minha espera para com sua densidade trazer-me as recordações das infindas dores das ausências sofridas. Bicadas, as bicadas no vidro da janela novamente, insistentes, compassadas. O som de vidro agredido invadia meus ouvidos, atroz, feroz, inquietante. "Vou eliminar a causa dessas minhas inquietações!". "Não, vou aceitar ser vencido pela ânsia de buscar as respostas, pegando o bicho agourento, prendendo-o aqui dentro do sótão!". "Mas, e se infestar o ambiente com as coisas que traz, as quais não sei quais são? Uma ave dessas não anda, com certeza, sem miasmas e coisas que tais!. Acabará com a paz do meu pequeno e sossegado cubículo, contaminando o ar com as coisas que traz!". Tais eram os meus pensamentos! Felinos, chacais, corrosivos, que consumiam minhas entranhas. Traria para dentro do meu sótão a matéria negra do negrume das dores já vencidas, mas latentes, ou afastaria de vez a áurea sem luz? "Sim, vou matar esse animal e jogar bem longe no pantanal! Para que servem os charcos, senão para apodrecer as matérias orgânicas, não lhes deixando rastos?" As bicadas incessantes continuavam. Agora o corvo inchava as asas, parecia desesperado. Decerto pedindo para entrar. Levantava o bico e o abria num grasnar suplicante e gutural. A madrugada, esta madrugada qualquer da encruzilhada do tempo, avançava com seus gemidos noturnos. O orvalho chegava e já caia e deslizava sobre as penas, reluzentes ao luar, daquele corvídeo de penas pretas-azuladas. Ele começou a caminhar impaciente sobre o umbral da janela, de lá para cá e de cá para lá. E parava e bicava e bicava. Vez por outra premia as penas das asas com seu bico para retirar o orvalho e voltava a caminhar desengonçado sobre o umbral. Desesperado, corri até a janela e bati com os dedos nos vidros, gritei, gesticulei. O bicho se assustou, voou e pousou num galho próximo. "Foi-se o infernal animal!" Foi o que pensei. Respirei fundo e me dirigi para minha poltrona. De repente um estouro de vidro quebrado e um corpo a meus pés rolando. Ali estava o corvo imóvel dentro do meu sótão. "Suicidou-se, o infeliz!" "Mas foi tenaz!". Peguei o suicida nas mãos, sentei-me na poltrona. "Tirou-me a decisão, afinal, este ignoto corvo!". Permaneci algum tempo também inerte mirando aquele corpo já esfriando entre as minhas mãos, como alhures esfriara junto de mim o corpo das tais lembranças já esquecidas, quais brasas sempre incendeiam com os sopros dos ventos invernais. A fria madrugada já adentrara trazendo junto o vento para dentro do meu reduzido quarto. E o vento zumbia e se espremia no buraco do vidro estilhaçado e seu zumbido era música fúnebre da alma do corvo que partia, deixando para mim aquele corpo de penas negras meio azuladas. "Mas, o que faço com o corpo dessa ave preta e lúgubre em meu colo?". Joguei-o longe. O corpo rolou pelo chão de agrestes tábuas e se acomodou junto a estante. Mas a batida foi tão forte que um livro solto caiu sobre ele. Voltei a mim mesmo e sucumbi ao cansaço. Fantasmas começaram a dançar, fantasmas daqueles que mandei embora, daqueles que se foram sem dizer adeus, daqueles que não tivemos tempo, dos que me amando se foram. Pude sentir o gosto do mel da saudade em meu coração, mas esse mel foi escorrendo e se petrificando, qual lavas no vale de um vulcão, como sempre acontece. Tomei um copo de leite que quase sempre deixava sobre a mesinha para beber mais tarde. A brancura do leite ascendeu-me, pelo contraste das cores, o negrume do corvo preto. Olhei e lá estava o corpo, onde o havia arremessado. E também o livro sobre ele. Olhei para a janela e ele não estava mais. Nunca mais o verei por sobre o umbral. Nunca mais ouvirei as suas bicadas. Nunca mais o verei caminhando trôpego por sobre o umbral. O seu grasnar agudo não mais atravessará as madrugadas. Nem suas penas se molharão ao úmido sereno. E seu olho molhado nunca mais será o espelho para os meus olhos. Morreu o imponente corvídeo. Nunca mais voltará para levar a história de suas viagens ao ornitólogo estudioso ou quiçá para os amigos das trevas abissais. Nunca mais me desafiará a tomar decisões, nem a conjeturar sobre temores escabrosos, habitantes escondidos de minh’alma. Nunca mais! Mais um "nunca mais" em minha vida. Já havia, por muitas vezes, superado vários "nunca mais" com seus imponderáveis vácuos. E, agora, o corvo. Da janela para o chão. Do grasnar para a mudez. Com esforço voltei os olhos para o corpo inerte. Fitei-o. Caminhei lentamente até ele. Peguei-o, segurei com as duas mãos. Seu pescoço caído, sua cabeça manchada com fios de seu sangue, suas penas pretas-azuladas – era tudo que restava. Nesta análise que fazia me deparei com o anel que havia na perna da ave. Concentrei meu olhar ali. Estremeci. Gravado no estreito anel que envolvia a perna escura e escamada do animal eu li com espanto: "Nunca mais! – e.a.p, 1845." Deixei cair o corpo inerte de minhas mãos a tremer. O corpo esparramou-se sobre o livro que, aberto em páginas divididas com a capa para cima, ficou espremido entre o corpo do corvo e o chão. Estarrecido, imóvel, assim permaneci por minutos. Ao amenizar o torpor, abaixei-me, peguei com raiva a ave preta e a atirei através da janela estilhaçando o restante da madeira e vidros. "Vai ave agourenta e não retornes nunca mais!" Peguei o livro, o livro que havia caído da estante, e li na página aberta: "O Corvo. De Edgar Allan Poe". Meu olhar turvou-se. Era difícil acreditar em tamanha coincidência. Seria mesmo coincidência? "Nunca mais – e.a.p, 1845" .Podem ser as iniciais de Edgar Allan Poe e, 1845, foi o ano que Poe publicou seu poema ‘O Corvo’. "O que está acontecendo?". A pergunta martelava em meu cérebro. Era um limiar inacreditável.
Trouxeram-me de volta respingos de chuva fria que entravam carregados por vento forte o qual adentrava pela janela quebrada. Não tinha percebido que o tempo lá fora mudara, repentinamente, e uma tempestade já estava a caminho. Recoloquei o livro na estante e encaminhei-me para apanhar um pedaço de madeira que fechasse, temporariamente, a janela. Meu caminhar foi abruptamente interrompido por alguma coisa que voava, já dentro do quarto. Num relance percebi que era um pássaro e dos grandes o qual pousou em cima da estante. Era um corvo. Não um corvo comum, desses corvos fedorentos, com penas toscas, que vivem comendo a carniça das carcaças mortas, os quais, comumente, chamamos urubus; mas sim, um corvídeo imponente. "Ressuscitou o corvídeo!" Pensei apavorado. Num instante peguei um livro da estante e o joguei na direção do ressuscitado. A ave voou e pousou sobre a mesinha defronte da poltrona. Atirei outro livro e o bicho voou por sobre a minha cabeça e voltou a pousar na mesinha. A chuva entrava forte e o frio da noite me enregelava. Fui obrigado a pregar a tábua, fechando a janela e deixando a ave preta no quarto. Acomodei-me na poltrona, diante do corvo pousado na escrivaninha. "Então voltaste, animal das trevas?", perguntei.
O corvo impassível me olhava, me olhava. "A que forças diabólicas te aliaste? Quem são os teus poderosos que te trouxeram de volta?" O corvo impassível. "Fantasma do Nunca mais, retornaste para vingar-te? Eu lá sabia por que querias entrar em meu quarto!. Buscavas refúgio? Alguém te perseguia?". O corvo impassível. Eu olhava através daquela ave agourenta e não para ela. Perscrutava a sua alma em busca de respostas que não conseguia encontrar. Lentamente, fui me detendo nele. O corvo, agora comia calmamente, em bicadas rápidas, um pedaço de pão que eu havia deixado e a intervalos me olhava com o seu olho redondo, ora um ora outro, virando a cabeça. Aos poucos, uma calma foi tomando conta de mim, ao ver o bicho, sem medo, degustando o pãozinho. Deixei que matasse sua fome, aproximei devagar as minhas mãos e o peguei. Ele não fez resistência. Apertei-o com uma das mãos contra a mesinha e com a outra puxei a perna que continha um anel e li: "Estou de volta. e. a. p., 1949". Instantaneamente, minha memória acusou: 1949, ano da morte de Edgar Allan Poe! Segurei o bicho pelo pescoço, quase esganando-o. "O que és afinal, ave fatídica? Alma penada em corpo de corvo, por que me escolheste?" Apavorado fui até a janela, afastei a tábua um pouco, o suficiente para a passagem da ave. Por encanto, a lua estava imponente alumiando novamente a madrugada. Foi-se a tempestade! Foi-se o corvídeo.
Desde então, em qualquer madrugada solitária, bica na minha janela um corvo. Não um corvo comum, desses corvos fedorentos, com penas toscas, que vivem comendo a carniça das carcaças mortas, os quais, comumente, chamamos urubus; mas sim, um corvídeo imponente. Um corvídeo com penugens lustradas de um preto-azulado.
E eu o deixo entrar.
( História inspirada no poema "O Corvo, de Edgar Allan Poe.)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

PROTEÇÃO CONTRA RAIOS SOLARES

Esteja atento aos efeitos dos raios solares.

Estou transcrevendo este artigo, publicado no suplemento "Viver com Saúde" do Jornal NH do dia 17/12/2007, ( www.jornalnh.com.br ), artigo esse patrocinado pelas farmácias de manipulação da cidade de Novo Hamburgo, por conter informações muito claras das ações dos raios UV sobre nossa pele.

"Farmácias de Manipulação – Fotoproteção
Assim como a falta de sol gera problemas de saúde na síntese de vitamina D, a exposição freqüente e intensiva por longos períodos sem uma adequada proteção vem, igualmente apresentando estatísticas crescentes assustadoras quanto à incidência de melanoma. Quando nos expomos ao sol, a radiação Ultra Violeta ( UV ) é absorvida pela nossa pele, desencadeando reações imediatas e cumulativas. Durante todo o dia, as radiações atingem a terra sendo que a UVA está presente do amanhecer até o cair da noite. Esta radiação chega à nossa superfície em grande intensidade e hoje sabe-se que ela penetra a camada mais profunda da pele ( derme ), onde ao longo do tempo, danifica as fibras de colágeno e elastina, reduzindo sua capacidade natural de firmeza e sustentação, refletindo no aparecimento de rugas e o câncer mais agressivo ( melanoma ). A radiação UVB concentra-se entre as 10 h e 16 h, por esse motivo deve-se evitar o banho de sol nesse período e é responsável pela queimadura, envelhecimento e alguns tipos de câncer. A radiação UVC não atinge a superfície da terra, sendo absorvida pela camada de ozônio.
É preciso entender que a radiação UV é cumulativa, embora muitas lesões ou alterações causadas pela luz solar não sejam visíveis na pele de uma criança, a nível celular essa radiação já está agredindo a pele e vai ser responsável mais tarde por lesões pré-malignas, malignas e envelhecimento.
Recentemente, a medicina descobriu a ação nociva e traiçoeira dos raios UVA.Os protetores solares não apresentavam indicações de proteção solar contra os raios UVA, porque ainda não se tinha noção do estrago que poderiam causar. Enquanto todos estavam preocupados em usar fotoprotetores com altos fatores de FPS, acreditando que a pele estava defendida, a radiação UVA já ocupava espaço, sem que ninguém percebesse na pele.
A melanina é um pigmento produzido pela pele humana em maior ou menor quantidade e que funciona como um filtro solar natural. \sendo assim, quanto mais escura for a pele de uma pessoa, mais protegida estará em relação à radiação, isto não quer dizer que essas pessoas estejam imunes às radiações, o que acontece é que elas têm uma proteção natural maior que as pessoas de pele muito clara. Normalmente a escolha de um filtro solar deve ser feita em função de cor da pele.
As emulsões com FPS 15 protegem 93,3 % da radiação UVB, FPS 30-96,7%, FPS 6-98,3%. O FPS mede a proteção contra os raios UVB, responsáveis pela queimadura solar, mas não mede a proteção contra os raios UVA. Hoje alguns produtos já oferecem a proteção contra os raios UVA, mas é preciso ficar atento ao FPS-UVA do filtro do produto, nem todos os produtos possuem filtro UVA.
Os aceleradores ou prolongadores de bronzeamento tornam o processo mais rápido e mantém por mais tempo a pigmentação da pele. Podendo ser: uso tópico ( emulsões ) e uso oral ( betacaroteno, carotenos naturais ).
Os simuladores de bronzeamento ou aotobronzeadores se destinam a pigmentar a pele sem a necessidade de raios solares.
Os cosméticos pós-sol têm a finalidade de aliviar as conseqüências causadas pela exposição à radiação UV. Devido a exposição, a pele sofre um processo inflamatório que se manifesta inicialmente como eritema, prurido e dor.
Os filtros solares devem ser usados todo os dias, até mesmo em dias nublados, em todas as estações do ano."
.... (suprimi comercial das farmácias)
Na página 5 do mesmo jornal, no artigo "Proteção Solar, garante bronzeamento saudável", retirei a seguinte tabela orientativa:

COM QUE FILTRO EU VOU?
FPS 8 : Para quem se bronzeia com freqüência e nunca fica vermelho.
FPS 15 : Para quem costuma se bronzear e, às vezes, fica vermelho.
FPS 30 : Para quem não costuma se bronzear e quase sempre fica vermelho
OBS.: Seguir a tabela baseado em seu tipo de pele, resposta ao sol e avaliações de FPS.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

A Doutora, O jornalista e o Arco do Triunfo

Acomodada no meu assento de avião para retornar à Coimbra ainda estava sob o impacto da noite anterior.
O avião taxiava na pista para alçar o seu vôo. Fechei os olhos enquanto subíamos para as nuvens. Pensei que a minha subida poderia ter sido bem diferente.
Naquela noite, em Paris, eu resolvera fazer algo já programado antes da viagem. Subir ao Arco do Triunfo ao anoitecer e ver Paris, à noite, lá de cima. E foi o que fiz.
-Boa noite! Alguém ao meu lado dizia. Olhei ao redor, só ele estava ali,
-Boa noite! Respondi. E arrisquei,
-De onde você é, para falar a minha língua?
-Do Brasil. E você ?
-De Portugal. Qual é seu nome?
Ouvi quase um sussurro, dito lentamente:
-D-e-s-t-i-n-o
-Como, seu nome é "Destino"?
-Não, eu estava pensando alto. Sempre penso que se é o destino que me traz as coisas ou se sou eu que as levo para ele.
-Como assim?
-Meu nome é Ulisses e como sei que você quer saber qual minha profissão, sou jornalista. E você?
-Sou pesquisadora da Universidade de Coimbra.
-E o que pesquisa?
-Atualmente, estou pesquisando sobre o "Pensamento".
-Pensamento? Belo tema.
E completou:
-Estava olhando você há mais ou menos meia hora.
-Não diga, respondi. E o que viu de interessante?
-Aparências, por enquanto nada mais, mas encantadoras para uma noite em Paris.
-E o que você pensou?
-Ah! Pensei na Dulcinéia de Dom Quixote.
-Que estranho, por quê?
-Sabe, olhando Paris daqui de cima, vendo essa imensidão de prédios, ruas e gente, fico a imaginar como seria um Dom Quixote da atualidade.
-E imaginou? Perguntei-lhe, já curiosa, em conhecer mais o pensamento daquele homem, loiro de olhos azuis e vestido todo de preto. Se não fosse o luar, por certo, só lhe enxergaria a cabeça.
-Vejamos. O que permanece até os dias de hoje da vida desse aventureiro? Sem dúvida, Dulcinéia permanece. Porque ainda existe mulher. Você, por exemplo. Rocinante, o cavalo de Dom Quixote, o que seria hoje? Meu Deus, que sacrilégio. Me perdoe Cervantes, por essas comparações mundanas. O que conduziria o "Aventureiro de La Mancha" hoje? O automóvel, penso eu. Sim, não há dúvida. Existem semelhanças fortes, além disso lhe serviria de armadura também. E a "Espada"? O que representaria melhor a "Espada"? Vejamos. Cervantes, por favor, não te levantes de tua tumba sagrada! Espada, espada....O dinheiro ! É o dinheiro! Serve bem. Sancho Pança? E você, fiel escudeiro? Difícil! Quem ? Quem? Não acho. Você não existiria nos dias atuais, meu caro Sancho Pança. Minha história prosseguiria sem você. Viu amigo Cervantes, vamos ter que inventar um novo personagem ou deixar nosso aventureiro sozinho!
-O que você acha? É possível imaginar Dom Quixote nos dia atuais? Perguntou-me, Ulisses.
-Você esqueceu algumas coisas, repondi-lhe.
-O que, esqueci?
-Por exemplo, a "Loucura" de Dom Quixote.
-Bem pensado. Tantas idéias me surgem para a loucura. Vejamos: "Consumismo"?- O cara seria doido por consumismo. Religião?- nosso aventureiro seria um fundamentalista, um terrorista. Ou seria "doido" por ser arrastado por uma sociedade preconceituosa?- por exemplo, quem não for a Paris, não pertence à casta dos cultos, dos bem sucedidos. Ou seria "doido" por lutar contra as hipocrisias do homem moderno? -"Em nome de Jesus, eu te curo. Quem sentia dores nos pés, não sente mais!" . Ou "doido" por querer entender certas ações humanas? -"Ouro nas Igrejas e pobres nas favelas, bem fiéis"! Ou Avião moderno para um e seus companheiros e aeroportos cheios e parados para outros! Ou ainda "doidão" por lutar por uma educação melhor e ver os recursos indo para os paraísos fiscais para encher os bolsos dos inteligentes? Ou "doido" por lutar pela ecologia, contra guerras, contra a exploração do homem pelo homem? Não faltam motivos, nos dias de hoje, para a "doidera" do nosso Dom Quixote da atualidade.
-É, não faltam. Respondi, olhando para ele e achando que sua história teria coerência.
Um certo tempo decorreu até que retomássemos o diálogo. O que estava ele pensando? Estaria completando o quadro de sua história? Não tive coragem de interromper. Permaneci olhando as estrelas do céu de Paris e sua beleza à noite vista de cima do Arco do Triunfo. Ao longe a torre Eifel, tão imponente, varando as alturas. A noite está perfeita para pensar em Piaf. Ah! Edith Piaf, seus amores e seus cantares. A minha recordação mental do ""Hymne À L’Amour", foi interrompida.
-E você, Doutora, em que pensa? Tão quieta? Trouxe-me ele de volta dos meus pensamentos.
-Meu Deus, aí está o pensamento de milhares de homens e mulheres, lhe respondi. Em Paris, em cada lugar, em cada monumento, em cada praça, aí está o "Pensamento" transformado em obras. Elas estratificam cada idéia, cada momento do pensamento das épocas. Podemos reconstruir a história do pensamento humano através de suas obras. Você quer esperimentar, perguntei-lhe?
-Quero!
-Então, feche os olhos e desça comigo até um banco de Champs-Elysées. Estamos sentados e olhamos para cá e não vemos o Arco do Triunfo. Ele ainda não existe. Estamos na época antes de sua construção. Qual é o momento histórico? Recorde seus estudos enquanto estudante de jornalismo.
Aí está ele agora construído. Pronto. Esta obra é um "pensamento"! Ela tem sua história. Não é apenas uma construção fria.
-Mas, quantos a vêem assim, perguntou-me Ulisses.
-É claro, as visões são diferentes! Cada um cria a sua história, como você fez com Dom Quixote.
Quando acabei de dizer essas palavras, Ulisses agarrou-me por trás, encostou-me à parede e senti uma de suas mãos prendendo fortemente meus braços atrás, quase sufocando-me. Uma dor aguda subia pelas minhas costas. Agora olhava atônita para a paisagem noturna, tão linda, de Paris, a outra mão de Ulisses segurava algo parecido com uma faca e a encostou no meu pescoço, pressionando-o de tal modo, que meu coração disparou, minha respiração enchia e esvaziava o meu peito. Mal pude sussurrar:
-O que é isso, Ulisses?
-Veja as horas, Olhe no meu pulso.
Olhei com pavor para o seu pulso que segurava o objeto do meu medo e respondi:
-Falta pouco para as três horas.
-Isso mesmo faltam dois minutos para as três horas da madrugada. Estamos aqui, penso que só nós dois. Daqui a dois minutos o Arco do Triunfo, símbolo dos franceses, voará pelos ares e nós também. Adeus símbolo dos "pensamentos", como você diz.
-Não faça isso, pedi desesperada. Você é um terrorista?
-Já é tarde, na minha religião não há lugar para arrependimentos. Não tem como voltar atrás. Dentro de poucos instantes os explosivos programados para as três horas em ponto, detonarão e tudo ficará sereno depois. Vamos olhar para o relógio e esperar.
Tentei me desvencilhar das mãos de Ulisses, mas era impossível. Pareciam cordas poderosas a envolverem-me e me imobilizarem. Só me restava mesmo esperar. Despedi-me da vida e aguardei. Duas horas e 58 minutos, duas e cinqüenta e nove... Cerrei os olhos...nada mais podia fazer.
Repentinamente senti-me livre. Olhei instintivamente para o meu relógio, Três horas e um minuto. Não explodiu?
Virei-me para Ulisses e ele já estava indo embora. Corri ao seu encalço, segurei-lhe o braço e exigi que me explicasse o que estava acontecendo. Ele voltou-se com calma, olhou-me e disparou:
- Agora você tem a sua tese de doutorado!, disse-me ele, e virou-se para ir embora.
-Espere! Ele voltou-se e perguntou:
-Falta algo, Doutora?
-Sim, lhe respondi. Vamos trocar nossos cartões de endereços. Tenho uma proposta para lhe fazer.
-E qual é? Perguntou-me com ar frívolo, o jornalista.
-Você escreve a sua história e eu a minha e depois de prontas um envia para o outro. O que você acha?
-Ah! Quer descobrir como eu penso! Quer fechar a sua tese, hein, Doutora?
-Talvez, ainda não sei. Mas, acho que devemos isso um ao outro, disse-lhe.
-Pois bem, aceito sua proposta. Dentro de um mês a Doutora receberá a minha versão.
-Combinado. Mas, esqueça, por favor, o "Doutora", acho que você o está usando num sentido que me desagrada.
-Tudo bem. Até daqui há um mês.
-Até. Vi sua silhueta preta sumir naquela madrugada fria em Paris.

autor: ifh

sábado, 21 de abril de 2007

Combate ao Mosquito da Dengue

Assunto: Fw: Dengue - combateData: Tue, 17 Apr 2007 21:51:44 -0300

Pó de Café, nova arma contra a DENGUE
MAS VOCÊS SABEM PORQUE ISSO NÃO É DIVULGADO NÉ?
AS PREFEITURAS ARRECADAM TODOS OS ANOS UMA POLPUDA VERBA EXTRA POR
CONTA DO MOSQUITINHO. POR QUE ACABAR COM ELE!? GENIAL E IMPORTANTE!
NÃO DEIXEM DE REPASSAR A TODOS!!!
VERÃO E DENGUE ANDAM JUNTOS.

Uma cientista paulista, a bióloga Alessandra Laranja, do Instituto
de Biociências da UNESP (campus de São José do Rio Preto),durante a
pesquisa da sua dissertação de mestrado, descobriu que a borra de café
produz um efeito que bloqueia a postura e o desenvolvimento dos ovos do
Aedes Aegypti.

O processo é extremamente simples: o mosquito pode ser combatido
colocando-se borra de café nos pratinhos de coleta de água dos vasos, no
prato dos xaxins, dentro das folhas das bromélias, e a borra de café, que é
produzida todos os dias em praticamente todas as casas tem custo zero.

O único trabalho é o de colocá-la nas plantas, inclusive sendo
jogada sobre o solo do jardim e quintal.

Os especialistas em saúde pública, entre eles médicos
sanitaristas, estão saudando a descoberta de Alessandra, uma vez que, além
da ameaça da Dengue 3, possível de acontecer devido às fortes enxurradas de
final de ano, surge outra ameaça, proveniente do exterior: a da Dengue tipo 4.

Conforme explica a bióloga, 500 microgramas de cafeína da borra de
café por mililitro de água bloqueia o desenvolvimento da larva no segundo
de seus quatro estágios e reduz o tempo de vida dos mosquitos adultos.

Em seu estudo ela demonstrou que a cafeína da borra de café altera
as enzimas esterases, responsáveis por processos fisiológicos fundamentais
como o metabolismo hormonal e da reprodução, podendo ser essa a causa dos
efeitos verificados sobre a larva e o inseto adulto.

A solução com cafeína pode ser feita com duas colheres de sopa de
borra de café para cada meio copo de água, o que facilita o uso pela
população de baixa renda e pode ser aplicada em pratos que ficam sob vasos
com plantas, dentro de bromélias e sobre a terra dos vasos, jardins e hortas.

O mosquito se desenvolve até mesmo na película fina de água que às
vezes se forma sobre a terra endurecida dos jardins e hortas, também na
água dos ralos e de outros recipientes com água parada (pneus,garrafas,
latas, caixas d'água etc.).

'A borra não precisa ser diluída em água para ser usada', diz a bióloga.

Pode ser colocada diretamente nos recipientes, já que a água que
escorre depois de regar as plantas vai diluí-la.
Ou seja: ela recomenda que a borra de café passe a ser usada,
também, como um adubo ecologicamente correto.

Atualmente, o método mais usado no combate ao Aedes Aegypti é o
aspersão dos inseticidas organofosforados, altamente tóxicos para homens,
animais e plantas.

Que tal colaborarmos, repassando a mensagem e aplicando a borra de café???

Luciana Rocha Antunes
Bióloga - especialista em Gestão Ambiental
Mestranda em Agroecologia e Desenv. Rural
UFSCar e Embrapa Meio Ambiente
Tel: +55 19 81567751
lurantunes@yahoo.com.br

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

ADAGIÁRIO

http://www.portalbrasil.eti.br/ditopopular/adagio.htm


Eu tinha a intenção de construir um adagiário. Comecei a escrever alguns e outros não me vinham à mente, mas eu sabia que existem centenas, então resolvi consultar a Internet. Bem aí, sabe como é, a Internet "é um desmacha prazer", já tem tudo ou quase tudo. Encontrei um adagiário pronto !!!!!!!
Consulte o endereço acima e se surpreenda, como eu!!!!

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

RIO DOS SINOS

Minha indignação perante a irresponasibildade do homem diante da natureza:

RIO DOS SINOS

Levantai-vos Cavaleiros da Luz!
Levantai-vos Cavaleiros da Esperança!
Urge cerrar fileiras contra os Cavaleiros das Trevas!
A grande batalha é agora!
Nosso Rio dos Sinos está agonizante!

De suas entranhas vomita a vida morta
Não há oxigênio, putrefaz-se a matéria
Seres, milhares, agonizantes, suplicantes
Bóiam na ignorância humana.

Levantai-vos Cavaleiros da Luz!
Levantai-vos Cavaleiros da Esperança!
Urge cerrar fileiras contra os Cavaleiros das Trevas!
A grande batalha é agora!
Nosso Rio dos Sinos está agonizante!

"Não me deixem morrer
Não roubem minhas árvores ciliares
Não exterminem, dos pássaros, os seus cantares
Não me abandonem, me amem!

Sou história, sou romance, sou transporte
Sou alegria, sou velho e sou criança
Sou poesia, sou esperança
Sou parceiro de suas vidas
Sou templo da natureza."

Levantai-vos Cavaleiros da Luz!
Levantai-vos Cavaleiros da Esperança!
Urge cerrar fileiras contra os Cavaleiros das Trevas!
A grande batalha é agora!
Nosso Rio dos Sinos está agonizante"

"Vim trazer a vida e perpetuar minha espécie
Agonizo e vou morrer
Triste sonho o meu de cumprir minha missão
Não voltarei jamais ao meu lugar
Destruíram minha vida e as vidas que eu daria
Não pude nem dizer adeus, onde estão os meus?"

Levantai-vos Cavaleiros da Luz!
Levantai-vos Cavaleiros da Esperança!
Urge cerrar fileiras contra os Cavaleiros das Trevas!
A grande batalha é agora!
Nosso Rio dos Sinos está agonizante!

"Navegava respirando beleza
Navego, agora, singrando os mortos, os peixes
Que me davam o sustento
Meu barco está vazio
Minha criança chora no seu berço
E eu choro por meu rio!"

Levantai-vos Cavaleiros da Luz!
Levantai-vos Cavaleiros da Esperança!
Urge cerrar fileiras contra os Cavaleiros das Trevas!
A grande batalha é agora!
Nosso Rio dos Sinos está agonizante!

"Das águas límpidas onde eu nadava
Das areias mornas das borboletas coloridas
Restam magoas e tristezas
E a visão horripilante
Da enorme mortandade
Dos peixes do meu rio!"

"Saudosos tempos das mães
Que suas roupas lavavam
Nas margens ribeirinhas
Nas sombras dos ingazeiros
Acenando para os amigos canoeiros!"

É a história a chorar
Sua saudade da doce vida coloquial
Vamos, num esforço conjunto, fazer voltar
O nosso belo Rio dos Sinos colonial!

Levantai-vos Cavaleiros da Luz!
Levantai-vos Cavaleiros da Esperança!
Urge cerrar fileiras contra os Cavaleiros das Trevas!
A grande batalha é agora!
Nosso Rio dos Sinos está agonizante!

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Uma réstia de Vinicius

Um copo de whisky varando a madrugada
Alternando-se com a pena que desliza
Chamando a poesia que chega
Doce às vezes, outra arrebatadora
Sempre o amor, a busca constante
A dor da ausência chorando
E também inspirando
Os goles se sucedem
As palavras simples e poéticas deslizam
O orvalho molha o vidro da janela
A lua espia pendurada na noite
O poeta sobe e desce
Quer desapegar-se, não consegue
A vida o prende, a poesia o liberta
O poema se cria, cresce aos poucos
E a garrafa se esvazia, a mente levita
O coração palpita forte
Suspira, o dia chega
Despede-se da noite
A poesia está pronta

sábado, 21 de outubro de 2006

Colhendo Você

O balão é belo nas suas multicoloridas visões
Mas seu mistério é explodir
Enquanto não explode enfeita
Explodindo em pedacinhos
Estoura a alegria inconstante do ser
O belo tem que explodir
A flor tem que murchar
O rio vai para o mar
O amor é como a rosa
Se colhido como botão
Não desabrocha
Se colhido muito tarde
Em breve despetala
Tenho que colher você
Em tempo certo
Prender você
Não deixar flutuar
Nem explodir
Nem murchar, nem despetalar,
Nem ir para o mar, sem mim
Tenho que colher você
Para resplandecer nos meus dias
Como se eu fosse o oceano
Que reflete, do sol, os raios
Como se fosse a noite
Que enlouquece ao luar
Com mil olhos de estrelas
Pestanejando de longe, muito longe
Espiando você, perdida sem mim
Buscando alguém que não sou eu
Tenho que colher você
Antes que seu perfume se vá
Que seu cheiro de rosa esmaeça
Nas suas pétalas murchas
Antes que a saudade me faça
Peregrino da nostalgia
Pertencendo ao vento
Que desgasta a rocha
De grão a grão, em vão.

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Para Helenita

Você e Eu

O tempo é a contagem do nosso finito
E nesse finito começamos e terminamos
Não temos a dimensão, apenas a idéia
Notícias do antes e do depois
Somos consciências no presente: você e eu
Você é a dimensão dos meus sonhos
A janela que descortina a realidade
O caminho que me dá a direção
Uma incerteza no todo: eu e você
Eu sou o porto do seu olhar
O reflexo do seu sorriso
A caricia do seu afago
Sou a leveza e a graça do seu caminhar
Sou a explosão do seu vulcão
Você é a cor dos cabelos que imagino
O moldar do vestido que me seduz
O perfume que se desfaz nas minhas ânsias
A maciez por onde eu ando
Somos ainda incertezas: somos eu e você
Sou o recomeçar do seu recomeçar
Você é a esperança da minha esperança
Nessas incertezas e certezas
Nossos dedos se entrelaçam
Nossos corpos se aproximam
Neste momento a certeza: somos você e eu.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Semana Farroupilha

A Peleia das Botas

Numa coxilha gaúcha cuja alma resplandece
Na lua enluarada bem em cima no céu,
Fogueiras de fogo guasca alumiavam o redor,
De longe qualquer um via as chamas alumiar
Povo, em tendas de luz, espalhados, bem juntos
Na infinita planura do verde sem fim.

A cuia corria de mão em mão acariciada
Tal qual o seio da amada morena
No silêncio do amor carnal.
Cada sorver era lento, sorvendo a vida
E o amargo da erva-mate era a doçura
Que alimentava o pensamento e a alma aquecia.

Na calada da madrugada ali se assentavam
De primeiro, antes do sol apontar sua orelha,
Vultos que, em seu tempo, alumiavam os pagos
Com seus feitos e bravuras, destemor e lealdade
A defender seus ideais com lança e sangue
Até a morte lhes tombar.

Bento Gonçalves e seus generais
Ainda bem vestidos com suas fardas farroupilhas
Traçavam estratégias pra ainda vencer
Não mais Laguna o porto, mas Rio Grande,
Seria pro mar a saída, para o charque vender.

Sem serventia o matreiro Saci-pererê
Com cachimbo no canto dos beiços
Pulava em uma perna só
E no descuido dos guascas, trocava chapéus e palas
E se a desatenção fosse grande maneava a cavalhada
Deixando enfezada a gauchada dos pampas.

Então, Bento Gonçalves, o grande comandante
Um plano esperto engendrou:
Chamou o General Neto que entendia dos negros
E mandou que prendesse o serelepe Saci-pererê.
Pendurasse, pela única perna, o negrinho
Numa réstia de luar e lhe entregassem o cachimbo
Pois, com ele iria negociar.

Feito a malvadeza, o negrinho a espernear
Se acercou o comandante e pôs-se assim a falar:
Esse cachimbo só te devolvo depois da tarefa acabar
Vá até ao Moringue e o intrigue com Bento Manuel
Só depois do fato consumado
Volte aqui para receber de volta o cachimbo.

Foi o pererê montado na madrugada
A cumprir tão árdua missão
Já lastimando a falta do torto cachimbo
Que sempre o ajudava a campear.
Se acomodou na sela da coxilha
Pensando qual o plano que iria bolar
Mirou as estrelas infindas
E uma delas lhe disse :
Roube as botas dos dois.

Lá se foi, qual corisco, o negrinho.
Surrupiou as botas de Moringue e também
As de Bento Manoel .

Ao aceitar a oferta, Bento Gonçalves,
Pro negrinho o cachimbo devolveu
Pois se os dois, sem botas, não brigassem
Pelo menos um bom tempo sem elas andariam.
Ordenou, a dois farroupilhas, que pendurassem
Em boa forquilha, os dois pares de botas.

Pelas tantas da noite um alvoroço se fez:
Era tinir de esporas e voar chumaços de capim,
Em roda, a peonada, fazia matinada.
Foi ver Bento Gonçalves qual era a façanha
E sua surpresa foi tanta ao ver
Os dois pares de botas numa encarniçada peleia
Que rompendo campo a fora enroscadas
Se perderam no horizonte.
E de lá, bem dos confins, se ouviu
Uma risada estridente, muito maleva,
Que só podia ser do negrinho safado,
O pastoreador Saci-pererê.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Algumas Poesias Preferidas

CÁLICE

Traga-a de volta, meu cálice!
Não me torturem mais as recordações
Dos doces instantes dos seus encantos
Já não suporto as tuas emanações
E dela, a ausência, nos doces cantos.
Traga-a de volta. meu cálice!
Quero sorvê-la novamente
Aos poucos, lentamente,
Ouvir os seus gemidos
Ternos e ungidos
O seu olhar ardente
Falando-me loucamente
E seu corpo desfazendo-se
No meu intensamente.
E, talvez, o último gole sorvendo
Te despedace no chão, meu cálice
Junto da paixão que me faz morrendo
Suplicar a ti, que já não está mais vivendo:

Traga-a de volta meu cálice!

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Mulher Amante

As entranhas, aos poucos, o amor consome
Magma do vulcão que explode e some
Vens, provocas,te instalas e etérea te vais
Em mim, doloridos, rios de ais
Petrificam em lavas colossais.
Navegas dentro de mim alegremente
Depois partes, assim, tão docemente
Dizendo voltar em tom irreverente
Me deixando a lembrança do teu ventre
Em ondas de sensação efervescente.
Clamo por ti nas noites frias
Do deserto da tua ausência sentida
Me enrosco, me encolho, mas me esfrias
A alma, o corpo, a minha vida partida.
Vem, mulher amante, derrete em mim, teu vulcão
Dissolve-me e arrasta contigo o que restou
Nos acordes sonoros do colchão
Nos ardentes momentos de ilusão.

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Ânsias

Quantas ânsias o homem se impõe
Ao sucumbir aos desejos,
Ao mergulhar nas tenras carnes
De uma caprichosa mulher.
Não, não vou sucumbir aos teus caprichos
Aos teus encantos, aos teus beijos,
Aos teus seios macios.
Não! Não vou! Hás de ver!
Espero por ti nas praias do verão
Nas noites frias do inverno
Na minha solidão...
Mas não vou sucumbir
Aos teus caprichos de mulher
Não! Não vou! Hás de ver!

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POEMA SOBRE O ROMANTISMO

(Novo Hamburgo, 28/04/2006)

Espanta-se a França ao brado da liberdade!
Ergue-se altaneiro o lábaro dos Românticos,
O sentimento sepulta a realidade
No Brasil, aos primeiros evasivos cânticos.

Minha Terra tem palmeiras
A natureza saudosa das flores
Antônio Gonçalves Dias, do exílio, além fronteiras
Chora e canta a dolorosa ausência dos seus primores.

Casimiro de Abreu, pueril poeta
Saudades da infância querida
O sonho, a fantasia, n’alma inquieta
Amor e medo cavam colossal ferida.

Amargura, intensos amores melancólicos
Venturas perdidas, tédio e desesperança
Lacrimosos poemas, outrossim, tão bucólicos
Amálgamas etéreos, sentimentos em lança

Castro Alves, tocha do condor poeta, lastima
Se é mentira...se é verdade?
Lâmina poética de profundo estigma
Do negro navio, da negra tempestade.

Muito, muito além Sousândrade
Estranho condor no ninho
Encerra com "Guesa"o Romantismo
Sacrificando ao deus Sol o menininho.

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Ode aos desgraçados

(N0vo Hamburgo, 10/08/06)

Diante de ti, oh! Dor, deponho meus sentimentos
Armas que tenho diante da besta humana.

A criança, berço da inocência, é encarcerada
Não vive mais, não renasce, é esquecida
Por quê? O que é isso? Como funciona?
Criança perturbadora, curiosa, inventiva
Domesticamos o anjo ao canto adulto
Deponho a INOSCÊNCIA!

Rios de sangue percorrem as estradas
A fé como escudo defende a insanidade
Imortal e perene a besta humana segue
Os irmãos em feudos se encarceram
Que morram os outros, acabou-se
Deponho a PAZ!

Dos corações fluem palavras de fogo
Incendeiam-se as almas, o olhar mata
Agiganta-se a besta humana, explode, destila
Sobra a alma, perdida, abandonada, sofrida
Restos dilacerados de desgraçados
Deponho a FRATERNIDADE!

Procuro no jardim das palavras
As mais lindas e perfumadas
Para fazer um buquê de imagem
Espelho de ti, minha amada.
Quando me chegas, tuas lavas me envolvem
Queimo por dentro e por fora, uma loucura!
Meu olhar desliza pelas coisas tuas, nuas
Tremo ao teu toque, sinto que estremeces
Nosso olhar nos emudece, articulamos apenas
Nossos dedos se entrelaçam, estamos juntos
Brotas em mim e eu em ti
E essas palavras? Enfim,
Somos, um lindo buquê!
Deponho, aos teus pés, oh! Dor,
O AMOR.

Deponho, diante de ti, oh! Dor,
A Ética, a virtude, os valores, a bondade
A fé, o senso e a solidariedade
Faça de todos esses sentimentos, Dor,
Uma fogueira imensa
Pois, muito a besta humana já queimou
Livros, cidades, seres mulheres e homens
E também animais. Tudo já incendiou!

Sou, porém, peregrino do Universo
E a besta tem também o seu anverso
Não deporei diante de ti, oh! Dor
Ode, talvez única, dos desgraçados,
A ESPERANÇA!

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